A Vida do Rev. Dr. George William Butler

O “médico amado” de Pernambuco


George W. Butler nasceu em Roswell, na Geórgia, em 12 de julho de 1854. Filho de família pobre, estudou as primeiras letras com a esposa do pastor presbiteriano de sua comunidade. Bacharelou-se no Davidson College, na Carolina do Norte, e depois se mudou para Nova York, onde começou a dedicar-se ao estudo da medicina. Dadas as dificuldades, transferiuse para Baltimore, onde, em 1880, graduou-se pela Escola de Medicina Johns Hopkins, da Universidade de Maryland. Clinicou em Roanoke, Virgínia, de 1880 a 1882. Sentindo a vocação para a obra missionária, apresentou-se como candidato em 15 de agosto de 1882.

Embarcou para o Brasil em 31 de janeiro de 1883, chegando a Recife no dia 22 de fevereiro na dupla capacidade de professor e médico. Ajudado pelo Rev. John Rockwell Smith, logo aprendeu a língua e a maneira de viver do povo. No ano seguinte, teve de fazer uma viagem aos Estados Unidos devido a um problema nos olhos. Nessa ocasião, foi ordenado pelo Presbitério de Maryland. Era uma exceção, visto que não tinha curso de seminário nem passara pelo período regular de licenciatura. No dia 27 de abril de 1884, casou-se com Mary Rena Humphrey, retornando ao Brasil apenas dois dias após o enlace matrimonial.

Após um estágio em Recife e o nascimento do primeiro filho, transferiram-se em 1885 para São Luís do Maranhão, onde chegaram no dia 15 de maio. Nessa cidade, a primeira pessoa convertida e batizada pelo Dr. Butler foi uma senhora da alta sociedade local, D. Maria Bárbara Belfort Duarte, esposa de um parlamentar e tribuno do império. O segundo grupo, composto de seis pessoas, foi batizado pelo missionário no dia 6 de junho de 1886, data a que se atribui a organização inicial da Igreja de São Luís, cujo templo foi inaugurado em 26 de julho do ano seguinte. Butler teve bons cooperadores em São Luís, entre os quais os cônsules da Inglaterra e de Portugal; também cercou-se de bons colportores e pregadores leigos. Obreiro consagrado e grande evangelista, o trabalho do Rev. Butler estendeu-se pelo interior do Maranhão, principalmente à cidade de Caxias, que visitou pela primeira vez em maio de 1886, e a Teresina, capital do estado vizinho do Piauí, onde fez conferências na mesma ocasião. Fez viagens missionárias pelos rios Itapicuru e Mearim e praticou a medicina entre a população carente. A organização definitiva da Igreja de São Luís ocorreu no dia 5 de abril de 1892, quando Butler encerrou o seu pastorado pioneiro naquela igreja.

Por conta de suas primeiras férias, foi aos Estados Unidos e ao regressar, em 29 de abril de 1893, fixou residência em Recife, substituindo-o em São Luís o Rev. Belmiro de Araújo César. Butler assumiu o pastorado em lugar do Rev. John Rockwell Smith, que havia seguido para Nova Friburgo a fim de lecionar no Seminário Presbiteriano. Em Recife, Butler iniciou a construção do novo templo, cujas obras prosseguiriam no pastorado do seu sucessor, Rev. Juventino Marinho. No ano seguinte, atendendo a apelos do Rev. Henry J. McCall, o casal Butler foi residir em Garanhuns, onde a obra evangélica fora iniciada recentemente, debaixo de violenta perseguição. No dia 6 de janeiro de 1895, o missionário batizou os primeiros conversos (quinze pessoas), entre os quais o futuro pastor Jerônimo Gueiros (1880-1953). Eventualmente, muitos membros dessa importante família iriam filiar-se à igreja presbiteriana. As perseguições continuavam: a casa do Dr. Butler, onde se realizavam os cultos, era constantemente apedrejada. Sua esposa tinha de colocar os filhos debaixo de uma mesa para protegê-los das pedras arremessadas no telhado. O grande adversário dos evangélicos foi um frade salesiano, frei Celestino de Pedávoli, cujo secretário, Constâncio Omero Omegna (1877-1927), converteu-se e veio a ser grande pastor, educador e musicista na Igreja Presbiteriana do Brasil.

Naquela época, houve uma epidemia de febre amarela em Garanhuns que ceifou a vida de mais de 800 pessoas. Butler desdobrou-se no atendimento aos enfermos. Quando cessou a epidemia, o missionário havia granjeado a estima e o respeito de todo o povo. Seu trabalho evangelístico produziu muitos frutos em toda a região e Garanhuns tornou-se um centro irradiador da fé evangélica. Butler construiu o templo local, fundou uma escola paroquial (origem do Colégio 15 de Novembro) e contribuiu para a criação de um curso teológico que mais tarde viria a ser o Seminário Presbiteriano do Norte. Nesse projeto, contou com a colaboração de dois valorosos obreiros, os Revs. George E. Henderlite e Martinho de Oliveira. Em Garanhuns, Butler exerceu a medicina, mas, para não ser acusado de charlatanismo, levando a família, passou o ano de 1896 em Salvador. Após um período de estudos, no dia 17 dezembro de 1896 defendeu tese na Faculdade de Medicina e Farmácia da Bahia para poder clinicar no Brasil. A tese versou sobre o emprego do clorofórmio na
medicina. Um relatório de 1896 diz que no último ano o missionário fizera, em viagens evangelísticas, quase 7000 km de trem, 500 km a cavalo, e prestara assistência médica a 1500 pessoas.

Após a sua volta da Bahia, Butler passou ainda um ano em Garanhuns e então se mudou para Canhotinho, distante cerca de 25 km dali, onde passou o restante da sua vida. Em fevereiro de 1898, ao visitar a cidade de São Bento do Una, encontrou forte oposição clerical. No dia 7, quando ele e seus companheiros saíam da cidade, um carteiro tentou matá-lo, mas o punhal atingiu o Sr. Manoel Correia Vilela (conhecido como Né Vilela), que morreu imediatamente. Anos mais tarde, o Dr. Butler transferiu para o novo templo de Canhotinho os restos mortais daquele amigo que morrera para salvá-lo. Até hoje as igrejas do Nordeste contam com membros dessa família, como é o caso do Rev. Maely Ferreira Vilela, professor no Seminário de Recife. Na localidade de Glicério (atual Paquevira) converteram-se as famílias dos Srs. Lourenço Alves de Barros, Eusébio Leitão e Antônio da Silva Romeu, das quais procederam muitos pastores.

Lourenço de Barros (1859-1905) foi ordenado ao ministério em 1901 e pastoreou a Igreja de Pão de Açúcar (Alagoas) e a de Manaus, por ele organizada em 18 de novembro de 1904, na companhia do Rev. William M. Thompson. Faleceu em 26 de abril do ano seguinte, vitimado pelo beribéri. Foi pai do Rev. João Alves de Barros (1887-1976), nascido em Rio Formoso (PE), que por sua vez foi progenitor do Rev. Dante Sarmento de Barros. Da família Leitão, chegaram ao ministério os irmãos José Martins de Almeida Leitão e Davi de Almeida Leitão, seus sobrinhos Boanerges, Natanael e Uriel de Almeida Leitão, e o primo destes Milton de Almeida Leitão, que foram pastores no leste de Minas e no interior de São Paulo. Todos eles estudaram no Colégio 15 de Novembro, na época do Rev. Thompson. O único sobrevivente do grupo é o Rev. Natanael de Almeida Leitão, nascido em 1º de dezembro de 1922 e residente em Americana. O Rev. Uriel é o pai da conhecida jornalista Miriam Leitão, da Rede Globo de Televisão. Antônio da Silva Romeu foi o progenitor do Rev. Cícero Siqueira (1894-1963), que teve no Dr. Butler o seu grande mentor e incentivador.

Em janeiro de 1900, verificou-se a organização das duas igrejas que o missionário havia fundado em Pernambuco: no dia 21, Dr. Butler e Juventino Marinho organizaram a Igreja de Canhotinho e no dia 22, Juventino Marinho e William C. Porter organizaram a Igreja de Garanhuns. O trabalho missionário e médico de Butler continuou a expandir-se nas duas décadas seguintes. Sua fama de grande médico e cirurgião atraía pessoas de 500 km ao redor, a quem ele atendia mediante modesto pagamento ou gratuitamente, das 6 horas da manhã às 11 da noite. Quase todos os dias fazia cinco a dez operações, geralmente muito bem-sucedidas. Atendia a todos, até mesmo alguns de seus antigos perseguidores. O padre que provocara a perseguição em São Bento, da qual resultara a morte de Né Vilela, tempos depois foi obrigado a procurar o Dr. Butler. Este, com lágrimas nos olhos, disse que gostaria de restaurar-lhe a saúde, mas a sua moléstia era incurável. De tal maneira correu a fama do médico missionário que até mesmo o padre Cícero, de Juazeiro, mandava-lhe
doentes para tratamento.

Butler era admirado como evangelista e pregador, e também como um homem de oração – orava antes das operações e durante as mesmas. Além do grande templo de Canhotinho, inaugurado em 20 de julho de 1915, construiu um colégio e um hospital (ele os chamou de Fé, Esperança e Caridade). Trabalhou na construção do templo com as próprias mãos, assim como fizera em São Luís. O edifício ostentava dois torreões na fachada, o que de longe o identificava como igreja, coisa proibida na época do império. Havia florescentes congregações em Glicério, Quipapá, Quebrangulo e Tupi. Em tudo isso, o missionário teve o concurso da sua notável esposa (o Rev. William M. Thompson disse que D. Rena valia por uma multidão). Outros dois notáveis auxiliares foram Cícero Siqueira e Cecília Rodrigues, que se casaram no dia 2 de fevereiro de 1917, seis dias após a ordenação de Cícero.

Em agosto de 1918, o Rev. Butler deixou o hospital entregue a Humphrey, o filho médico, a igreja a Cícero, pastor auxiliar, e o colégio evangélico a Cecília, e viajou com a família para os Estados Unidos. A vocação missionária, porém, falou mais alto, e oito meses depois ele regressou sozinho ao Brasil. Os seus últimos sermões foram muito comoventes; em um deles, que versou sobre Hebreus 9.27-28, mostrou profundos conhecimentos científicos e impressionou o auditório. Terminou chorando. Sexta-feira, 23 de maio, foi à estação despedir-se do Rev. Henderlite, que se transferia para Recife, e voltou para casa doente.

O “médico amado” faleceu em Canhotinho às 3 horas da tarde do dia 27 de maio de 1919, um dia em que choveu muito naquela região após uma longa estiagem. No dia seguinte, ao ser sepultado entre a igreja e o colégio, todo o comércio da cidade fechou as portas espontaneamente. Esse homem de Deus deixou solidamente implantada a fé evangélica no Agreste Pernambucano e estabeleceu em Garanhuns o grande centro irradiador onde se formaram pastores para todo o Norte e Nordeste do Brasil. O casal Butler teve sete filhos: George, Humphrey, Grace, Janet, Rena, Hilda e Helen. O Dr. Humphrey Butler faleceu em 1922.

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