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(Leia a Parte 1Parte 2 e Parte 3)

  1. Oração e dependência reverente da suficiência de Deus.

E aqui a teologia e a metodologia de Lutero tornam-se quase idênticas. Em típica forma paradoxal, Lutero parece retomar quase tudo o que disse a respeito do estudo quando escreveu em 1518:

Que as Sagradas Escrituras não podem ser penetradas pelo estudo e o talento é certíssimo. Portanto, o seu primeiro dever é começar a orar; e orar para que Deus se agrade em realizar algo para glória dele — não para sua glória ou para a glória de qualquer outra pessoa — para que ele graciosamente lhe conceda um verdadeiro entendimento de suas Palavras. Porque não existe mestre algum das palavras divinas, exceto o Autor destas palavras, como ele diz: “Todos serão ensinados de Deus” (João 6:45). Você deve, portanto, desesperar completamente de sua própria capacidade e habilidade, e confiar exclusivamente na inspiração do Espírito (Plass, 77).

Mas, para Lutero, isso não significa deixar a “Palavra externa” em devaneio místico, mas mergulhar todo nosso esforço em oração, e lançar-nos de tal modo a Deus que ele penetre, sustente e prospere todo o nosso estudo.

Uma vez que a Sagrada Escrita requer ser tratada com temor e humildade, e examinada mais pelo estudo[!] com oração piedosa do que pela agilidade intelectual, assim, torna-se impossível que aqueles que dependem apenas de seu intelecto e se precipitam nas Escrituras com pés sujos — como porcos, como se as Escrituras fossem apenas uma espécie de conhecimento humano — não prejudiquem a si mesmos e àqueles a quem eles instruem (Plass, 78).

Novamente, ele vê o salmista no Salmo 119 não apenas sofrendo e meditando, mas orando repetidas vezes.

Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei… Faze-me atinar com o caminho dos teus preceitos… Guia-me pela vereda dos teus mandamentos, pois nela me comprazo. Inclina-me o coração aos teus testemunhos e não à cobiça… vivifica-me no teu caminho.

Assim, Lutero conclui que a verdadeira maneira bíblica de estudar a Escritura é estar saturado de oração, dúvida de si mesmo e dependência de Deus, a cada momento:

Você deve desesperar completamente do seu próprio sentido e razão, pois por meio destes você não alcançará o objetivo… Antes, ajoelhe-se em seu pequeno quarto particular e, com verdadeira humildade e sinceridade, rogue a Deus por meio de seu querido Filho, que graciosamente lhe conceda o seu Espírito Santo para que lhe ilumine, guie e dê entendimento (Plass, 1359).

A ênfase de Lutero sobre a importância da oração para o estudo está enraizada em sua teologia, e aqui é onde a sua metodologia e sua teologia se tornam uma. Ele foi persuadido a partir de Romanos 8.7 e de outras passagens que:

A mente natural não pode tornar nada piedoso. Ela não compreende a ira de Deus, não pode temê-lo de modo correto. Não vê a bondade de Deus, portanto, não pode confiar nem crer nele. Portanto,[!] devemos orar constantemente para que Deus conceda os seus dons a nós (Bergendoff, 301).

Todo o nosso estudo é inútil sem a obra de Deus vencendo a nossa cegueira e insensibilidade. No coração da teologia de Lutero havia uma dependência total da gratuidade da graça onipotente de Deus, resgatando o homem incapaz da escravidão da vontade. Seu livro com esse título, The Bondage of the Will [A Escravidão da Vontade], publicado em 1525, foi uma resposta ao livro de Erasmo, The Freedom of the Will [A Liberdade da Vontade]. Lutero considerou este um dos seus livros — The Bondage of the Will— como seu “melhor livro teológico, e o único naquela categoria digno de publicação” (Dillenberger, 167).

Para entender a teologia de Lutero e sua metodologia de estudo, é extremamente importante reconhecer que ele admitia que Erasmo, mais do que qualquer outro oponente, percebera que a incapacidade do homem diante de Deus — não a controvérsia das indulgências ou o purgatório — era a questão central da fé cristã. O homem é incapaz para se justificar, incapaz para se santificar, incapaz para estudar como deveria e incapaz de confiar em Deus para fazer algo sobre isso.

A exaltação de Erasmo da vontade do homem como livre para vencer o seu próprio pecado e a escravidão foi, na mente de Lutero, um assalto à liberdade da graça de Deus e, portanto, ao próprio evangelho. Em seu resumo da fé em 1528, ele escreve:

Eu condeno e rejeito como nada além de erro todas as doutrinas que exaltam nosso “livre-arbítrio” como diretamente opostas à mediação e graça de nosso Senhor Jesus Cristo. Pois, desde que separados de Cristo, o pecado e a morte são nossos mestres e o diabo é nosso deus e nosso príncipe, não pode haver força ou poder, nem inteligência ou sabedoria, pelo que possamos nos adequar ou nos moldar à justiça e à vida. Pelo contrário, cegos e escravos, somos cativos súditos de Satanás e do pecado, fazendo e pensando o que agrada ao diabo e nos apondo a Deus e aos seus mandamentos (Plass, 1376).

Para Lutero, a questão da escravidão do homem ao pecado e sua incapacidade moral de crer ou tornar-se justo — incluindo a incapacidade de estudar corretamente — foi a questão principal da Reforma. A liberdade de Deus e, portanto, a liberdade do evangelho e, portanto, a glória de Deus e a salvação dos homens estavam em jogo nessa controvérsia. Assim, Lutero amava a mensagem de A Escravidão da Vontade, atribuindo toda liberdade, poder e graça a Deus, e toda incapacidade e dependência ao homem. Em sua exposição de Gálatas 1.1-12, ele relatou:

Lembro-me que no início da minha reivindicação, o Dr. Staupitz… disse-me: agrada-me que a doutrina que você prega atribua a glória e tudo a Deus somente e nada ao homem; pois a Deus (que é mais brilhante do que o sol), não se pode atribuir glória, bondade, etc. em demasia. Esta palavra consolou-me e fortaleceu-me grandemente na época. E é verdade que a doutrina do evangelho remova toda a glória, sabedoria, justiça, etc. dos homens e atribui-as ao Criador somente, quem faz tudo a partir do nada (Plass, 1374).

É por isso que a oração é a raiz da abordagem de Lutero para estudar a Palavra de Deus. A oração é o eco da liberdade e suficiência de Deus no coração do homem incapaz. É assim que ele concebeu a sua teologia e a maneira como ele prosseguiu em seus estudos. E é assim que ele morreu.

Às 3 da manhã, em 18 de fevereiro de 1546, Lutero morreu. As suas últimas palavras registradas foram: “Wir sein Bettler. Hoc est verum”. “Nós somos mendigos. Isso é verdade” (Oberman, 324). Deus é livre — completamente livre — em sua graça. E nós somos mendigos que oram. É assim que vivemos, e é assim que estudamos, de modo que Deus obtenha a glória e nós obtenhamos a graça

Por: John Piper. © Desiring God Foundation.Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: Martin Luther: Lessons from His Life and Labor.

Original: Martinho Lutero: lições a partir de sua vida e labores. © Ministério Fiel. Website: MinisterioFiel.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Camila Rebeca Teixeira. Revisão: William Teixeira.

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